"Santo Antão - o pomar de São Vicente" Ilha de Santo Antão by brancolini

Ilha de Santo Antão Travel Guide: 29 reviews and 40 photos

O Mar Azul é o maior de dois barcos que fazem o vaivém entre o Mindelo e Porto Novo, na costa noroeste de Santo Antão. Para quem está habituado a atravessar o Tejo nos costumeiros cacilheiros, o passeio de cerca de uma hora pode revelar-se incomodativo, tanto pela ondulação que, mesmo com mar calmo, é grande, como pela predisposição pelo enjoo que as pessoas parecem já trazer de terra. A viagem de ida e volta custa apenas 860 Escudos Cabo-verdianos, podendo ser preterida pela de avião que custa cerca de 4000. A acompanhar-nos, viajam cerca de duzentos passageiros, na sua maioria gente que veio vender produtos da terra ou trocá-los por outros mais sofisticados, que ainda não chegam ao “pomar de São Vicente” pelos circuitos comerciais.
À chegada a Porto Novo, o barco é assaltado por dezenas de condutores de “iáce” (como são chamadas as carrinhas, que são invariavelmente Toyotas Hiace), que asseguram a ligação entre Porto Novo e as outras povoações da ilha. Deste lado desta, a paisagem em nada se diferencia da de São Vicente. Um deserto lunar de pedra e terra, semeado aqui e ali de pequenas povoações e algumas palmeiras. Após conseguir “contracto” com um motorista e depois de conseguir fugir do pequeno parque de estacionamento congestionado pelos novos viajantes, começamos a subir a encosta mais alta deste lado da ilha. Connosco, viajam mais uma dezena de habitantes da ilha e visitantes e um volume de bagagem por cima da carrinha seguro por uma rede, que vamos deixando pelo caminho em pequenas aglomerações de cubatas. Para trás deixámos a zona portuária, onde se aglomeram as cargas de mandioca, batata, fruta, algum milho e muito grogue que se destinam ao mercado do Mindelo e às cozinhas dos restaurantes.

A subida até ao cimo da montanha faz-se a custo, debaixo de um sol quente e um ar seco, e embora a carrinha esteja superlotada, o condutor não deixa de acelerar pela estreita estrada de pedra, cheia de curvas e contracurvas. Uma primeira impressão ressalta da irregularidade do terreno. Toda a extensão em nossa volta está repleta de socalcos, até aos limites que as encostas o permitem. Em toda a ilha se repete esta proeza do homem, numa desesperada tentativa de aproveitar toda a água que o clima aqui permite esperar. Ao chegar lá acima, depara-mo-nos com uma paisagem tão diferente da que nos habituou o arquipélago, que nos imaginamos de repente transportados para a Serra da Arrábida. De facto, uma extensa área da ilha foi plantada de pinheiros e eucaliptos, espécies “importadas” por um biólogo?príncipe? austríaco no princípio do século passado. Um ensaio de reconstituição da flora em larga escala frustrado, já que estas espécies consomem grandes quantidades de água, tendo secado quase por completo o solo.
Quarenta minutos depois de termos deixado Porto Novo, encontra-mo-nos a meio caminho. Resta-nos agora descer a encosta norte da ilha, em direcção a Ribeira Grande. Este lado da montanha, engolida pelas nuvens, tem uma vegetação mais densa e são inúmeros os tons de verde que se vêm nos vales e montes de declives acentuados, muitas vezes falésias autênticas chegando a atingir a centena de metros a pique. Uma hora de caminho feito e estamos por cima de Ribeira Grande, uma povoação entrincheirada num vale estreito, outrora foz de uma verdadeira ribeira grande, que agora só com sorte vê um fio de água na época das chuvas. O centro da vila resume-se a uma rua cruzada por uma dezena de vielas, onde abundam os cafés e os barbeiros. Depois de descarregar as bagagens, senta-mo-nos numa mesa da Pensão S. Pedro onde nos é proposta uma carne guisada com batatas.

Nessa mesma pensão pode apreciar-se o genuíno pequeno almoço caboverdiano de “kaxupa seca” com ovo estrelado, café com leite, pão com manteiga e mel de cana. De estômago composto seguimos para Cova, a meia hora de caminho de iáce. Trata-se de outra povoação minúscula, situada numa cratera de um extinto vulcão, a cerca de 1.300 metros acima do nível do mar. Toda a área da cratera é cultivada, excepto uma pequena parte que é destinada ao pasto da meia-dúzia de vacas e burros que ali são criados. Daqui, seguimos por um caminho empedrado que serpenteia pela encosta abaixo até Ribeira de Paúl, em todos os aspectos semelhante à Ribeira Grande. O caminho de seis quilómetros representa na verdade uma distância horizontal de apenas cerca de quinhentos metros, mas também uma descida de quase mil metros, ao longo da qual vamos saíndo dos vapores húmidos do nevoeiro denso. Já a meio caminho, somos envolvidos por um cheiro muito característico que não sabemos identificar. Trata-se da distilação da cana de açucar, sempre acompanhada pelo barulho do motor que permite moer a cana. Ao sermos vistos pelos trabalhadores, somos de imediato convidados a visitar a rústica fábrica de grógue e a provar o produto ainda a pingar do alambique, que não é mais do que um forno de barro e uma cana cortada ao meio por onde corre a água fria para a condensação. Ainda quente, o grógue puro pode atingir os 90 graus de concentração de álcool, tornando-se assim num verdadeiro desinfectante, difícil de consumir por nós, mas muito apreciado pelos produtores.

Pros and Cons
  • Pros:the people
  • Cons:the boat
  • Last visit to Ilha de Santo Antão: Aug 1999
  • Intro Updated Jul 17, 2003
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brancolini

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